Por Jean Oliveira
Buscar apenas ser feliz empobrece a existência; apostar em uma vida interessante — com riscos, contradições e sentido — pode ser o caminho mais honesto para viver bem.
A ideia de felicidade virou um produto. Vende-se em frases prontas, cursos rápidos, vídeos de 30 segundos. Só que a vida real não cabe nisso. Ela é irregular, desconfortável e, muitas vezes, contraditória. E talvez esteja aí o ponto que muita gente evita encarar: viver bem não é viver feliz o tempo todo.
O psicanalista Contardo Calligaris provocou uma mudança de chave importante ao propor que, diante da brevidade da vida, o objetivo não deveria ser a felicidade constante — quase sempre ilusória —, mas a construção de uma vida interessante. E isso muda tudo.
Uma vida interessante não é uma vida perfeita. É uma vida vivida de verdade. Com escolhas próprias, com erros assumidos, com momentos intensos — bons e ruins. É a vida de quem experimenta, em vez de se proteger o tempo inteiro.
Há, porém, um obstáculo central: o ego. A crença de que somos o centro de tudo. De que nossos problemas são sempre maiores, mais urgentes, mais dramáticos. Quando a gente desloca esse olhar e aceita o óbvio — que somos pequenos em um universo vasto e indiferente — algo curioso acontece: o peso diminui.
Não é pessimismo. É libertação.
Se não somos o centro, não precisamos sustentar o teatro da perfeição. Não precisamos transformar cada erro em tragédia pessoal. Dá para rir mais, relativizar mais, viver com mais leveza. A vida ganha perspectiva.
O problema é que esse tipo de consciência não se sustenta sozinho. A rotina engole. As pressões voltam. As redes sociais reforçam a comparação. E, quando percebemos, estamos outra vez presos à ideia de que deveríamos estar mais felizes, mais realizados, mais “certos”.
É uma armadilha silenciosa.
Viver uma vida interessante exige coragem. Coragem para sair do script, para não agradar sempre, para aceitar que haverá perdas, frustrações e momentos difíceis. Mas também exige algo que anda em falta: disposição para sustentar essas escolhas sem terceirizar a culpa.
Não é um convite ao caos, nem à irresponsabilidade. É um chamado à autoria.
Porque felicidade, quando aparece, é passageira. Já uma vida interessante — essa sim — deixa marcas.
Jean Oliveira é psicólogo e jornalista
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