Por Antônio Reis
Em meados de janeiro escrevi uma crônica otimista quanto ao sucesso de "O Agente Secreto" na premiação do Oscar 2026. Na noite de domingo (15/03), com Malbec na taça, expectativa a mil, vi o filme nacional ser superado por outros tão bons quanto. Torci muito, mas não me sinto frustrado pelo insucesso de "O Agente Secreto". O prazer de estar conectado a uma enorme corrente de torcedores, em clima comparado a uma final de Copa do Mundo, valeu a pena.
No texto de janeiro, fiz constar meu apego ao cinema, que por muito tempo foi o entretenimento de minha preferência. Apesar disso, os filmes de que gostava não eram indicados ao Oscar. Meu gosto não coincide com a lógica mercadológica de Hollywood e da Academia. Comecei a prestar atenção a essa premiação quando os brasileiros passaram a constar da lista de indicados: "Quatrilho", "Cidade de Deus", "O que é isso companheiro", "Central do Brasil". Também torci muito por eles. Até que "Ainda estou aqui" nos viesse lavar a alma.
"O Agente Secreto" é o registro de um passado recente do País, e fundamental para explicar o presente que insiste em nos aporrinhar. Talvez os 10 mil jurados tenham considerado o filme de Kleber Mendonça Filho uma ficção exageradamente irracional a ponto de não merecer sequer uma estatueta. Logo nas primeiras cenas, "tá lá um corpo estendido no chão", à mercê de cães e ignorado pela polícia.
Em seguida, também no início da história, um policial tenta extorquir dinheiro de Marcelo/Armando (personagem de Wagner Moura) com rigorosa "inspeção" em seu carro. Como todo bom expectador, faço minhas conjecturas. Pensei que o policial fosse "plantar" cocaína ou outra droga qualquer no Fusqueta amarelo. E o enredo se desenrola até o assassinato de Marcelo/Armando por milicianos (atual, né??) a mando de um empresário, possivelmente financiador do regime dos generais.
A história, que tem como pano de fundo a ditadura militar, revela o Brasil no final dos anos 1970. O filme mostra que o País viveu um tempo tão surreal quanto as cenas do tubarão dissecado por cientistas, o gato de duas caras e a perna cabeluda. Tudo tão bem costurado com elementos da cultura popular: carnaval, frevo, música nordestina ("Harpa dos Ares", de Zé Ramalho/Lula Côrtes). "O Agente" é um contraponto à cafonice do sertanejo, da rejeição a livros e da repulsa à cultura em geral.
Faço coro àqueles que consideram o filme vitorioso, haja vista a corrida que provocou aos cinemas, não só no Brasil, dos debates e análises (principalmente em torno da atuação de Tânia Maria), da premiação em outros festivais, da presença marcante no tapete vermelho de Hollywood, da altivez de seus artistas (sem distinção). Faço coro por entender que o filme levou o molho, nordestinamente brasileiro, para o mundo.
(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante
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