Por Hélio Consolaro*
Há muito gostaria de escrever sobre merenda. Como quase sempre abordo temas da pauta do dia na mídia, o assunto ficava para trás.
Já houve tempo em que a merenda escolar vinha toda enlatada, supermanipulada. As licitações não eram tão honestas. Com o governo Montoro, surgiu a ideia de valorizar o agricultor local, comprar produtos da agricultura familiar, então o alimento servido ficou mais saudável.
Agora, a Câmara Federal está montada no assunto, discutindo projeto do deputado Fernando Máximo (União RO) propondo que professores, diretores e coordenadores da rede pública consumam a merenda escolar, sem que isso afete seu auxílio-alimentação, com o objetivo de valorizar a integração no ambiente escolar.
Em Araçatuba, à caça de um projeto para se chamar de seu, o vereador Luís Boatto (Solidariedade) apresentou o mesmo projeto. Plagiou, copiou, apoiou a ideia. Nas escolas municipais de Araçatuba, predomina também a proibição.
Como aluno, nunca tive merenda escolar (1957-60). No antigo prédio da EE Francisca de Arruda Fernandes, onde funciona hoje a FEA, levava-se de casa o lanche ou comprava-se qualquer coisa na escola.
Já o professor Consa, (ensino fundamental 2) era o primeiro a receber a sopa do dia, a título de ver se estava boa, era o que se servia como merenda escolar. Por causa disso, os alunos de escola pública me chamavam de Sopão.
Tenho saudade do chamado de Dona Romilda, a merendeira:
- O café está pronto, não está “escuitando” o cheiro? – o português era castigado, mas o café, uma delícia.
De vez em quando, nas ruas de Araçatuba, ouço algum barbado me cumprimentar: "Fala, Sopão!". Aí puxo como resposta tradicional: "Velhos tempos!". Nem sempre dá tempo de dar resposta, trata-se de um grito passando rapidamente numa moto.
Quando eu entregava as provas, se o aluno tirasse D ou E, eu dizia: "Toma sopa?". Se dissesse: "Não!", eu lhe respondia: "Caramba! Não tira nota e nem toma sopa. O que você vem fazer na escola?" O aluno ia para sua carteira resmungando como resposta: "Não sou sopão!"
Antigamente a merenda era uma forma de completar a alimentação do aluno na escola, havia o caráter da assistência social. Criou-se o conceito de que o professor e funcionário que comesse merenda na escola, estava deixando alguma criança sem comer. Proibiu-se.
A ideia está voltando com outro propósito: haver integração na ambiência escolar. Comer fora de casa, no serviço, atualmente é uma rotina. Daí a proposta do projeto.
A equipe pedagógica da escola comer a merenda (não é obrigado) é sinal de validação, de que ela está boa, estimula mais os alunos. Afinal, matar a fome não é comer qualquer coisa.
Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis e Itaperuna
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