Por Jean Oliveira
Vivemos sob a ditadura silenciosa da perfeição. É preciso ser magro, produtivo, bem-sucedido, emocionalmente equilibrado, financeiramente inteligente e ainda exibir um sorriso convincente nas redes sociais. A régua é alta. E muda o tempo todo.
O resultado está diante de nós: uma sociedade exausta, ansiosa, medicalizada e com medo constante de não estar à altura. O desconforto que sentimos não é novo. Sigmund Freud chamou isso de mal-estar da civilização — essa tensão permanente entre quem somos e o que o mundo espera que sejamos. Quando a cobrança externa vira cobrança interna, a autoestima paga a conta.
A escola fundada pelo filósofo Alain de Botton, a The School of Life, criada em Londres em 2008, propõe outra direção: em vez de alimentar fantasias de excelência permanente, devemos aprender a lidar com nossas limitações sem nos destruir por causa delas.
Ser bom o suficiente
Um dos conceitos centrais dessa visão é simples e revolucionário: o oposto da perfeição não é o fracasso. É ser “bom o suficiente”. Bom o suficiente no trabalho. Bom o suficiente como pai, mãe, parceiro, amigo. Bom o suficiente como ser humano.
Ser comum não é falhar. Pelo contrário. A vida real acontece no território do imperfeito. É no café apressado antes do expediente, na conversa possível — não ideal — com os filhos, no esforço honesto de pagar as contas, no cansaço depois de um dia difícil. A vida não está em um futuro impecável. Ela está aqui. E quase sempre vem sem filtro.
Quando aceitamos ser bons o suficiente, deixamos de gastar energia tentando impressionar e passamos a investir energia em viver. É uma troca poderosa.
A psicologia e a filosofia concordam em algo essencial: somos seres atravessados por conflitos. Não existe versão final de nós mesmos. Não há upgrade definitivo. Sempre haverá insegurança, dúvida, arrependimento, desejo mal resolvido.
Relaxe
Talvez maturidade emocional não seja atingir um padrão elevado de desempenho constante. Talvez seja aprender a se tratar com a mesma gentileza que você oferece a quem ama. Diminuir a autocrítica cruel. Reconhecer limites. Pedir ajuda quando necessário. Celebrar pequenas conquistas.
Não ser perfeito não é fracasso. É condição humana.
Jean Oliveira é psicólogo e jornalista
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação