Opinião

Mansidão de Lula e brabeza de Ciro

"Confesso que o achei cordial e simpático"
Da Redação
03/03/2026 às 15h31
Imagem: IA Imagem: IA

Por Antônio Reis

 

Semana passada, Lula contestou Tiago Eltz, repórter da Globo, que tentou distorcer uma fala dele numa entrevista coletiva em Nova Delhi (Índia). "O senhor disse que no encontro com o presidente Trump que o Brasil pode receber criminosos". O "nine”, com tranquilidade e educação, contestou: "Você não ouviu isso aqui".

 

Na explicação ao repórter, Lula disse que falara a Trump que o Brasil quer punir com cadeia pessoas que cometeram crimes aqui e fugiram pra Disney. "Se eu aceito que você faça a pergunta do jeito que está fazendo, dá a impressão de que eu falei isso. Mas eu não falei isso", continuou o “nine”. O jornalista perdeu o rebolado, tentou corrigir, pagou mico e virou meme nas redes.

 

O ocorrido me fez retroagir a 1998, quando Ciro Gomes foi candidato a presidente pela primeira vez. Eu era repórter da Folha da Região (Araçatuba-SP), então potência no Interior Paulista. Fui entrevistá-lo em Penápolis. Fui animado, mas com pé atrás, já que o presidenciável era, e continua sendo, famoso por sua destemperança verbal. Quando ministro da Fazenda, em 1994, chamou de otários os consumidores que aceitavam pagar ágio para comprar carros zero km. 

 

E lá fui eu entrevistar o bocudo. Assim que viu meu crachá, talvez na tentativa de desfazer a imagem de destemperado, saudou-me com um efusivo aperto de mão e a simpatia de um cearense nascido em Pindamonhangaba: "Olá, Toninhu. Tudo bem?". Discorreu sobre a fase de ouro dos jornais regionais, pré-Internet: "Estão entre as empresas que mais crescem no País". Olha a intimidade: “Toninhu”. Confesso que o achei cordial e simpático. 

 

E fomos à coletiva, pergunta vai, pergunta vem, um jovem repórter, suponho que de alguma emissora de rádio de Penápolis, cutuca a fera com longa introdução antes da pergunta. "O senhor e o ex-presidente Fernando Collor têm muito em comum: nasceram no Sudeste, mas fizeram carreira no Nordeste; tiveram projeção política ainda jovens, foram prefeitos de capitais (Ciro, em Fortaleza; Collor em Maceió), foram governadores (Ciro, do Ceará; Collor, de Alagoas) e ...". 

 

Impichado em 1992, Collor era a máxima expressão da corrupção no País. A fala do foca (repórter inexperiente na gíria jornalística) deixou a cara do ex-ministro vermelha feito malagueta madura. Parecia que ia soltar fogo pelas ventas e partir pra porrada. E em alto tom interrompeu a fala do foca, que não chegou à pergunta. "Excute aqui, rapaz. Me rexpeite. Não admito ser comparado a ladrão". E falou, discursou, esbravejou. O garoto ficou mudo pelo resto da coletiva.

 

Gostaria, juro que gostaria, que no lugar do foca de Penápolis estivesse Tiago Eltz. Ou que tente fazer com Ciro o que fez com Lula. O funcionário da vênus platinada ia provar do que é bom pra tosse. Só lamento que no momento em que o País mais precisava, Ciro e sua brabeza foram desfilar em Paris.

 

(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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