Representantes do Ministério Público e da Polícia Civil de Araçatuba (SP), que participaram da investigação que resultou na Operação Raio-X, ouvidas pela reportagem, rechaçaram a declaração do vice-prefeito de Birigui (SP), Marcelo Parizati (PSD), de que essa operação seria responsável pela crise financeira da Santa Casa da cidade.
O vice-prefeito deu essa declaração na última segunda-feira (15), durante depoimento na CEI (Comissão Especial de Inquérito) que investiga denúncia de possível irregularidade em contrato da direção do hospital com uma empresa médica, que foi feito sem licitação e com valor bem superior ao da empresa anterior.
A Santa Casa de Birigui está sob intervenção municipal desde fevereiro de 2022. Além de reclamar que o hospital teria perdido a credibilidade devido passar a ser conhecida nacionalmente pelo escândalo do desvio de dinheiro público, Parizati questionou o fato de a Justiça bloquear as contas da instituição.
“Como que um juiz manda bloquear recurso público destinado à Saúde, para uma única instituição que faça cirurgia na cidade? A Santa Casa é o único lugar público que nós temos!”, declarou, acrescentando que atualmente haveria mais de R$ 1 milhão em recursos retidos da Santa Casa, com a soma de valores que estariam sendo bloqueados desde as administrações passadas.
Fake News
Um das fontes ouvidas pela reportagem classificou como “fake news”, a declaração feita pelo vice-prefeito de Birigui. “Não tem nenhum dinheiro da Santa Casa de Birigui bloqueado pela Operação Raio-X. O que se sabe, é que a Justiça do Trabalho tem bloqueado as contas do hospital por causa de ações trabalhistas”, explicou.
Ainda segundo essa fonte, foram bloqueados apenas bens e valores de réus investigados e já condenados, tanto pela Justiça de Birigui como pela Justiça de Penápolis, onde a OSS Santa Casa de Misericórdia de Birigui também mantinha convênio para gestão do pronto-socorro.
Outra autoridade ouvida pela reportagem confirmou a informação e declarou que o que a Operação Raio-X fez, foi fazer o bem para a Santa Casa de Birigui, pois colocou na cadeia as pessoas que estavam desviando dinheiro público, utilizando o hospital.
Devolvido
Essa fonte explicou ainda que parte do dinheiro obtido com os bens e valores bloqueados dos réus da operação, ao final da ação, deve retornar para os cofres das Prefeituras que foram prejudicadas com as fraudes.
“Não tem absolutamente nada de bloqueio relacionado com a Raio-X. Essa é a maior mentira; foi um comentário infeliz. Na verdade, o que tem são bloqueios dos valores dos investigados. Aliás, valores esses que serão devolvidos para o município, inclusive já foram realizados leilões e há dinheiro em contas judiciais”, explicou.
Ônibus e carreta
Vale lembrar que em janeiro de 2021, a Polícia Civil de Araçatuba entregou para a Prefeitura de Birigui, um ônibus e uma carreta para atendimento itinerante de saúde, que foram apreendidos em decorrência da Operação Raio X.
A informação passada na ocasião foi que a própria Polícia Civil requereu à Justiça que autorizasse o depósito dos veículos para serem utilizados no atendimento à população, já que eles estavam parados e Birigui vivia uma crise na área da saúde.
Na época, a informação passada foi de que somente os equipamentos instalados nos dois veículos, entre eles dois aparelhos de ultrassom e um mamógrafo, estariam avaliados em mais de R$ 1 milhão. No início da atual administração municipal, em janeiro de 2025, os dois veículos estavam parados no pátio da Prefeitura.
Operação
A Operação Raio-X foi deflagrada pela Polícia Civil de Araçatuba em setembro de 2020, resultado de uma investigação em parceria com o Gaeco (Grupo de Apoio Especializado no Combate ao Crime Organizado), que apontou o desvio de aproximadamente R$ 500 milhões da área da Saúde.
O médico anestesista Cleudson Garcia Montali, apontado como o líder do grupo, foi condenado nas ações judiciais que tramitaram em Birigui e em Penápolis, e atualmente está em prisão domiciliar, tendo se mudado recentemente para Brasília (DF).
Ao ser ouvido na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Quarteirizações da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), quando ainda estava preso no CR (Centro de Ressocialização) de Araçatuba, Cleudson confirmou que era o responsável pelos projetos de gestão das OSSs (Organizações Sociais de Saúde) investigadas na Operação Raio X.
Uma dessas OSSs era a Santa Casa de Birigui, que na região mantinha contrato com o pronto-socorro de Birigui, o pronto-socorro de Araçatuba e o pronto-socorro de Penápolis. A organização social era presidida por Cláudio Castelão Lopes, que também foi condenado e está preso, por ser o responsável pelos pagamentos referentes aos convênios firmados pelas OSSs.
Indenizações
Além da pena de prisão, a sentença da 1ª Vara Criminal de Birigui condenou Cleudson a indenizar a Prefeitura da cidade em R$ 400.000,00. Apontado como braço direito de Cleudson, o médico Lauro Henrique Fusco Marinho foi condenado a pagar mais R$ 3.250.591,04 ao município.
Além disso, os dois também foram condenados solidariamente a devolver ao Estado de São Paulo, R$ 937.153,00, valor corresponde aos 166 mil dólares que seria a parte deles na sociedade de um avião. O juiz decretou ainda o perdimento da fazenda Três Rios, localizada em Aparecida do Taboado (MS), avaliada em R$ 7 milhões, por ter sido comprada por Cleudson com dinheiro supostamente desviado.
Em outra sentença da Justiça de Birigui, o ex-presidente da OSS foi condenado a indenizar a Prefeitura em R$ 881.494,30. Porém, somando esse valor ao devido por outros três réus, ultrapassa R$ 3,9 milhões.
Penápolis
Na ação criminal que tramitou na Justiça de Penápolis, a sentença determinou o pagamento de R$ 947.960,00 como indenização ao município de Penápolis por Cleudson, além da pena de prisão.
Nessa ação, foi declarado o perdimento de um imóvel na Alameda 01, nº 403, do Residencial Gávea, em Birigui, que seria de Cleudson; de dois depósitos bancários, somando R$ 220.000,00; de um Corolla; e de dois ônibus que teriam sido adquiridos com recursos desviados com o esquema criminoso investigado.
Nesta mesma ação, outros seis réus foram condenados a indenizar o município. Os valores somados chegam a cerca de R$ 2,8 milhões.