Opinião

Desobediência escrita

"Era a única ambição que ele ainda nutria"
Da Redação
08/07/2026 às 17h06
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por Thiago T. Canossa

 

Desobedecer.

 

Era a única ambição que ele ainda nutria. Faltava-lhe a coragem. A vida era entre a poltrona, a televisão e o controle remoto, pequenos cetros de um império sem risco. Sabia de guerras, crimes, quedas de reis e mortes públicas. Sabia de tudo. Mas nada lhe acontecia.

 

Por isso, escrevia.

 

Naquela noite, sentado à mesa da velha casa do pai, abriu o caderno e escreveu:

 

Desobedecer era a única ambição que ele ainda nutria.

 

A campainha tocou.

 

Alguns passos. Abriu a porta. Não havia ninguém. Apenas uma carta sobre a soleira. Sem remetente ou selo, escrita à mão.

 

Levou-a para dentro.

 

Abriu o envelope.

 

Em tinta azul-escura, a mensagem:

 

Não dê sentido àquilo que está prestes a escrever.

 

Não confie na primeira frase. Ela parecerá sua melhor, e talvez seja.

 

Você pensará que se trata de ficção. Não se trata. Pensará que poderá interrompê-la quando quiser. Não poderá.

 

Não procure a pá.

 

O início é, com frequência, um perigo.

 

Não esqueça: não termine, meu amigo.

 

A carta vinha datada. Vinte anos adiantada.

 

Na letra, os mesmos cortes, a mesma pressa, o mesmo modo de comprimir as palavras no fim da linha, a margem do papel dedicadamente obedecida.

 

Olhou para o caderno.

 

A primeira frase já estava escrita.

 

A carta chegara tarde, como chegam todos os conselhos.

 

Tentou rir. Depois explicar. Obedecer. Guardou a carta na gaveta, retirou-a, leu novamente, dobrou-a outra vez. Por fim, sentou-se. Não escreveria.

 

Mas a caneta já se movia.

 

Escreveu...

 

Primeiro veio a sala, a mesa, a carta. Depois o quarto fechado, o armário, a garrafa de cachaça, o maço de Continental, o escapulário.

 

No caixão, pálido, maquiado por mãos alheias, com uma gravata que jamais escolheria. Conhecidos cochichando frases respeitosas, pequenas. Flores vivas, café em copos plásticos, olhos serenos de solenidade. A tampa descendo sobre seu rosto.

 

[A mão tremeu.]

 

[Parou.]

 

[A casa estava imóvel.]

 

[A carta, aberta ao lado do caderno, parecia aguardar não sua leitura, mas sua rendição.]

 

Continuou...

 

A chuva fina sobre o cemitério. A terra batendo na madeira. O som o feriu mais que qualquer imagem. Depois o silêncio. Os dias seguintes. A umidade entrando no cláustro, o escuro pesando sobre as pálpebras fechadas, a carne cedendo ao trabalho paciente da terra. O corpo apodrecendo.

 

[Não parecia invenção.]

 

[Sem que soubesse tê-la pensado, com maior pressão nos dedos assustados...]

 

“Meu pai sorria”.

 

[A caneta parou.]

 

[O sangue recuou-lhe das mãos.]

 

[Leu a linha outra vez.]

 

“Meu pai sorria...

 

O pai de pé no quintal, a camisa colada ao peito pelo suor, o rosto sisudo deformado por um sorriso pequeno, quase satisfeito. Limpava as mãos na própria camisa. Sangue sem pressa, já escuro.

 

[Tirou da carteira o pai em fotografia.]

 

[A imagem não mais o repreendia.]

 

[E isso era pior.]

 

[Olhou para a carta.]

 

Não esqueça: não termine, meu amigo.

 

[Leu de novo.]

 

[Achou que compreendia. Eram sinais de consumação. Ou não fosse isso mera obra da Ficção?]

 

[Na carta, o aviso:]

 

Não procure a pá.

 

Escreveu...

 

Na área de serviço, atrás do tanque, a pá. A chuva começava a cair no quintal. A terra junto à mangueira estava mais baixa, escura, úmida, respirando sob a água.

 

[A carta dizia para não terminar.]

 

[Mas desobedecer era a única ambição que ele ainda nutria.]

 

Cravou a pá na terra.

 

Cavou com a força que não tinha. Cavou, tentando acordar. Cavou como quem prova que vive. A lama grudou nos pés, nas pernas, nas mãos. A chuva escorria pelo rosto. O cabo feriu a pele. A terra cedeu fácil demais, como não fosse a primeira vez.

 

A pá bateu em algo duro.

 

O som foi baixo, quase delicado.

 

Ajoelhou-se.

 

Afastou a terra com as mãos.

 

Primeiro veio tecido.

 

Depois dedos manchados... rígidos.

 

Depois o rosto.

 

O seu.

 

O corpo... em putrefação, enterrado sob a mangueira, a boca entreaberta, os olhos já devolvidos à terra, a pele vencida pelo tempo que não mais existia. A roupa era a mesma que naquela noite vestia. A mão direita parecia ainda procurar uma caneta, ou ao menos insistia.

 

[Caiu sentado.]

 

Então abriu-se inteira, a memória.

 

O pai sobre ele.

 

O sorriso breve.

 

A pancada.

 

O sangue.

 

As mãos sujas, limpas na camisa.

 

Quem abrira a carta?

 

Quem a desobedecia?

 

Quem aqui escreve?

 

[Terminara.]

 

Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito

 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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