Jean Oliveira
Há uma crença silenciosa, mas profundamente arraigada, de que permanecer é sempre virtude e de que romper, encerrar ou desistir carregaria alguma marca de fracasso. Trata-se de um equívoco que produz sofrimento. Nem tudo o que persiste amadurece; muitas vezes apenas se prolonga.
A experiência clínica e a própria vida mostram que há vínculos, projetos, identidades e etapas cuja continuidade deixa de ser crescimento e passa a ser repetição. E repetir, em certos casos, é apenas uma forma sofisticada de não mudar.
Pouco se fala sobre o valor psíquico dos finais. Somos educados para começos — iniciar relações, construir carreiras, constituir famílias, sonhar projetos —, mas quase nada aprendemos sobre a importância de concluir.
No entanto, grande parte do amadurecimento humano depende justamente da capacidade de encerrar ciclos. Não como quem abandona, mas como quem reconhece o tempo interno das coisas.
Perdas elaboradas
A psicologia compreendeu cedo que a vida psíquica não se organiza apenas por aquisições, mas também por perdas elaboradas. Freud (o pai da psicanálise), ao tratar do luto, ensinou algo fundamental: perder não é apenas sofrer uma ausência; é realizar um trabalho interno de desligamento e reorganização.
Há dor nesse processo porque há investimento afetivo sendo retirado daquilo que, por algum motivo, não pode mais continuar ocupando o mesmo lugar em nós. O sofrimento não nasce somente da perda em si, mas da resistência em reconhecer que certas experiências cumpriram seu percurso.
Isso ajuda a entender por que tantas pessoas permanecem presas não ao que vivem, mas ao que já terminou. Há casamentos mantidos pela nostalgia do que um dia foram. Carreiras sustentadas por uma identidade que já não encontra ali sentido. Relações afetivas prolongadas mais pelo medo do vazio do que pela vitalidade do vínculo. Nesses casos, não é o fim que paralisa; é a recusa em admiti-lo.
Amadurecimento emocional
O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, ao pensar o amadurecimento emocional, mostrou que crescer implica suportar separações. Desde os movimentos iniciais de individuação (tornar um indivíduo consciente de si), a vida psíquica se estrutura em pequenas experiências de perda que, quando elaboradas, ampliam a autonomia do sujeito.
Essa lógica não desaparece na vida adulta. Ela apenas ganha novas formas. Em algum momento, amadurecer passa a exigir a coragem de deixar para trás versões antigas de si mesmo.
Talvez um dos sinais mais consistentes de maturidade seja compreender que alguns finais não interrompem a vida; a reposicionam. Há encerramentos que não empobrecem o sujeito, mas o libertam de continuar investindo energia onde já não há potência.
Porque há ciclos que só terminam no mundo externo depois que conseguem terminar dentro de nós.
E, em muitos casos, é justamente nesse ponto que uma vida mais autêntica começa.
Jean Oliveira é psicólogo e jornalista
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