Opinião

Vida, morte e fé

"Eu não consigo entender, também, como minimalista, porque para a maioria, coisas são mais importantes do que pessoas, ou que a acumulação de bens materiais seja um fim em si mesmo"
Da Redação
08/10/2026 às 16h21
Foto: Arquivo Foto: Arquivo

Por Adelmo Pinho

 

Acordei cedo com um belo presente: o sorriso de minha mãe! A idade lhe chegou, mas ela mantém otimismo invejável sobre a vida (lembrando até Pangloss, personagem do livro Cândido, de Voltaire), e nem mesmo o lúcido pessimismo de Schopenhauer a abateria. Acho, porém, que pessimistas são mais propensos a melhorar o mundo, porque otimistas acreditam que tudo está bom (Saramago).

 

Ela já tinha preparado o café, cujo aroma “passeava” pela casa. Passei a observar o seu jeito peculiar de lavar a louça, lentamente, desfrutando do momento, como numa oração. Viver bem o presente e apreciar coisas simples, é uma arte, como pensava Pierre Weil. Ela é uma mulher de fé, diferente de mim.

 

Nunca pude entender se Deus existe, como ela crê. Mas, se ele existe, por que há tanta maldade e violência no mundo? Santo Agostinho dizia que se trata de livre arbítrio, sendo a maldade culpa do homem e não de Deus; porém, tenho dúvida acerca disso.

 

Sobre o que acho do “Criador”, se é que eu possa chamá-lo assim, talvez se aproxime mais ao Deus de Espinoza, não ao judaico-cristão. Seria algo divino parecido com o Panteísmo. Pode ser que eu seja ateia, ou mesmo agnóstica. E se Deus existir, de qualquer modo, por ele ser considerado bom, ele seria Deus de todas as religiões, sem um apartheid que existe na humanidade, móvel de guerras e outras atrocidades.

 

O monólogo do Grande Inquisidor, de Dostoiévski, na obra Os Irmãos Karamázov, fez-me pensar bastante sobre fé e religiosidade. O ser humano crente cultua religiões e seus rituais, mas comumente se comporta de forma contrária aos preceitos de suas doutrinas, como, a exemplo, venerar Jesus Cristo, modelo de ética, e não pôr em prática seus ensinamentos.

 

Dizer-se cristão é diferente de seguir no exemplo Cristo. Até por isso Nietzsche afirmava (no livro Anticristo) que o único cristão era o próprio Cristo. Sou apegada demais à minha mãe e ela a mim. Meus irmãos foram embora de casa com pouca idade e meu pai faleceu há muito tempo, por doença. Desde então, somos amigas, companheiras e confidentes.

 

Ela acabou de lavar a louça, olhou-me ternamente e perguntou se eu estava bem. Em seguida me deu um apertado abraço que retirou o peso das minhas preocupações mundanas. Durante o café, ela passou a conversar sobre a importância de ver o mundo com otimismo, mas sem idealismo, explicando que o ser humano não é perfeito, portanto, logicamente, nem nós éramos.

 

Disse-me: “somos aquilo que pensamos e fazemos; pensar coisa boa, gera coisa boa, pensar coisa ruim, o contrário; fazer é a mesma coisa ...”. Mostrou-me em seguida a orquídea rosa no vaso multicor sobre a mesa da sala, e disse: “Isso é vida e uma forma de Deus mostrar a sua presença; ele não precisa surgir do nada e se sentar conosco fisicamente, como quis São Tomé: ele nunca está, porque ele é, ou seja, ele existe por si, independente de tudo e todos”. E concluiu, de forma pedagógica, quiçá teológica: “Isso é ter fé, querida filha”.

 

Confesso que nunca entendi de onde surgiam essas ideias dela. Ela é analfabeta, mas fala de coisas com sabiedade socrática ou agostiniana. Quando o meu vazio existencial me domina, talvez influenciada por Nietzsche, em especial em Assim falou Zaratustra, A genealogia da moral e o Anticristo, o colo dela é o meu refúgio.

 

O niilismo às vezes me invadia. Nesses momentos, ela me olhava como se desvendasse meus pensamentos e isso preenchia o meu “hiato existencial” sartriano, como um “acolhimento psíquico”. Quando eu ficava assim, confesso, sentia-me como o inseto de A metamorfose de Kafka. Achava-me inadequada perante as pessoas e o mundo, desprezada, mas com a presença da minha mãe, era diferente.

 

Eu não consigo entender, também, como minimalista, porque para a maioria, coisas são mais importantes do que pessoas, ou que a acumulação de bens materiais seja um fim em si mesmo. Como dizem por aí, popularmente: “caixão não tem gaveta”. Tudo isso mexe comigo, me tira o sono e bate o niilismo. Fico me indagando, ainda: que importância tenho neste mundo? Nascer para morrer? Qual o sentido da vida?

 

Nem o Mito de Sísifo de Camus me socorre nesse dilema existencial. Mais uma vez ela, percebendo a minha angústia, acariciava meus cabelos e dizia: “Filha, a vida é uma oportunidade ímpar! A caminhada é mais importante do que o fim do caminho (que me lembrou o poeta Thiago de Mello)”.

 

E continuou: “O segredo da vida boa é o desfrutar dela nos bons momentos, e saber lidar com adversidades nos momentos ruins, fazendo sempre bem ao próximo, mesmo diante do mal que impera na sociedade”. E continuou: “Não importa o que acontece, filha – a causa, em si -, mas importa muito como se reage diante do acontecimento (causa)”.

 

Quando eu digo que minha mãe é sábia, não minto! É mesmo. Posso até discordar dela em certos assuntos, mas há algo nela que me chama a atenção, como se fosse um mistério. Repito: como uma pessoa tão simples, sem arcabouço acadêmico, como tenho, pode ter ideias tão originais e profundas?

 

O rosto dela, marcado pelo tempo, não retirava a sua beleza: tinha olhos negros, vívidos e rosto fino, bem delineado, que exprimiam no olhar uma paz peculiar; o seu modo de falar, manso, acalmava, lembrando até a Monja Coen. Ter ela ao meu lado, dia a dia, era o móvel que me fazia levantar da cama e enfrentar problemas.

 

Dias passaram, depois desse, em especial, e percebi algo anormal: ela não estava bem de saúde. Passou a ficar apática e ter dores abdominais. Levei-a o médico e o diagnóstico me tirou o chão: estava com câncer, mieloma múltiplo, em fase terminal. Esse resultado não foi passado a ela e não tive coragem de dizer-lhe, mas sei que ela pressentia que em breve partiria.

 

Lembrei de A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e pensei: serei o Guerássim e cuidarei dela até o último suspiro, para que parta com dignidade. Nos derradeiros dias, ela me pedia para ler, além de Bíblia (era católica), trechos do livro Imitação de Cristo, de Thomas Kempis, e das “cinco provas” da existência de Deus, Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino.

 

Perceba-se: a fé dela não diminuiu diante da morte, ao contrário, aumentou. Assim, em menos de um mês ela se foi, serena como uma “nau em águas calmas”. O velório foi simples, como ela gostaria, com a presença de poucos parentes e amigos da família. Durante essa cerimônia de despedida, tive a sensação estranha de ela estar ali, viva, ao meu lado.

 

O meu “porto seguro”, pois, se foi. A vida é efêmera. Como Platão, em Teoria das Ideias, que ensinou sobre a existência de um mundo sensível (material) e outro das ideias (metafísico), ela dizia sobre a existência de uma vida diferente depois da morte, que seria um re (começo). Não acredito, infelizmente, em algo assim. Infelizmente, porque gostaria de acreditar.

 

Penso que a vida acaba com a morte e nada mais. Somos seres finitos e biológicos, quiçá, futuros germes (Darwin e Schopenhauer). Tudo que vive morre ou “do pó viemos, ao pó voltaremos” (Gênesis 03:19). Ou como poetizou Fernando Pessoa, no poema Quinta, sobre o homem, ao final do texto: “... Cadáver adiado que procria ...”.

 

Ou como Freud, em O futuro de uma ilusão e em Totem e Tabu, também teorizou: “a fé é uma infantilidade psíquica do homem, que busca um segundo pai (substituto) para aplacar o desamparo humano”.

 

Ou estou absolutamente enganada – e posso estar - e existe vida pós-morte? Se estiver enganada, quero reencontrar meus pais, em especial minha mãe, e voltarei para contar a todos, como o fez Brás Cubas (em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis), com peculiar ironia – como na introdução do livro está:

 

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas” -, ou Ivan Ilitch (em A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói), com pesar, arrependimento e sofrimento, diferentemente de Brás Cubas.

 

*Adelmo Pinho é articulista, cronista e membro da Academia de Letras de Penápolis e da Academia Araçatubense de Letras

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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