Opinião

A presença de Cristo no outro: o verdadeiro sentido de Corpus Christi

"Não basta reconhecer Cristo no ostensório e ignorá-lo no irmão necessitado"
Da Redação
05/06/2026 às 10h52
Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Por José Márcio Mantello 

 

Todos os anos, a celebração de Corpus Christi reúne multidões em procissões (sobre os tapetes artisticamente produzidos pelos fiéis), missas e manifestações públicas de fé. A solenidade, cujo nome significa "Corpo de Cristo", recorda a presença real de Jesus na Eucaristia, sacramento central da tradição cristã.

 

No entanto, uma reflexão mais profunda sobre o Evangelho nos convida a ampliar nossa compreensão sobre onde Cristo deseja ser encontrado .

 

A fé cristã ensina que Jesus está presente no pão e no vinho consagrados (Eucaristia/Ceia). Contudo, o próprio Cristo revelou que sua presença não se limita ao alta r. Em uma das passagens mais impactantes do Evangelho de Mateus (Evangelho de Mateus 25:31-45), Jesus identifica-se diretamente com os pobres, os famintos, os doentes, os presos e os marginalizados :

 

"Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes" .

 

Essa afirmação desloca o olhar do cristão para além do templo . O Cristo que adoramos na Eucaristia é o mesmo Cristo que sofre nas periferias, nas ruas, nos hospitais, nos presídios e nas inúmeras formas de exclusão presentes na sociedade .

 

Por isso, a celebração de Corpus Christi não pode se reduzir a uma demonstração externa de religiosidade. A verdadeira adoração exige coerência . Não basta reconhecer Cristo no ostensório e ignorá-lo no irmão necessitado.

 

A fé perde sua autenticidade quando se limita a gestos ou coreografias verticais de devoção (mãos erguidas para o alto) sem produzir consequências horizontais de amor e solidariedade.

 

Existe uma frase que resume bem essa verdade evangélica: mãos levantadas nem sempre tocam Deus, mas mãos estendidas ao próximo certamente o alcançam .

 

Jesus nunca separou amor a Deus e amor ao próximo. Ao contrário, ensinou que ambos são inseparáveis. Quem afirma amar a Deus, mas despreza o semelhante, contradiz o próprio Evangelho .

 

A parábola do Bom Samaritano (Evangelho de Lucas 10:25-37) ilustra perfeitamente essa realidade.

 

Na narrativa, um homem é assaltado e deixado quase morto à beira da estrada. Um sacerdote e um levita (homens ligados ao templo e culto religioso) passam por ele e seguem seu caminho. Quem para e se interessa para ajudar é justamente um samaritano, alguém considerado estrangeiro e desprezado pelos judeus da época.

 

A mensagem é clara: a verdadeira espiritualidade não se mede apenas pela frequência aos atos religiosos, mas pela capacidade de reconhecer a dignidade humana e agir com misericórdia . O próximo não é apenas quem está perto de nós; é todo aquele que necessita de nossa compaixão.

 

Essa mesma lógica aparece nos Dez Mandamentos . Embora os primeiros quatro mandamentos tratem diretamente da relação com Deus, a maior parte deles (seis) refere-se ao relacionamento com o próximo: honrar pai e mãe, não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falso testemunho, não cobiçar. Em outras palavras, o amor a Deus se torna visível na maneira como tratamos as pessoas .

 

O eixo vertical da fé encontra sua comprovação no eixo horizontal da convivência humana. Não existe culto agradável a Deus que ignore a justiça, a caridade e o respeito à dignidade do outro .

 

Em tempos marcados pela intolerância, pela indiferença, pelo individualismo e pela egolatria, a mensagem de Corpus Christi torna-se ainda mais atual. Celebrar o Corpo de Cristo é reconhecer sua presença na Eucaristia, mas também assumir o compromisso de encontrá-lo no rosto de cada pessoa, especialmente daqueles que mais sofrem .

 

Afinal, o Cristo que está sobre o altar é o mesmo Cristo que espera por nós nas estradas da vida , à semelhança do homem ferido da parábola do Bom Samaritano. E talvez a pergunta decisiva da fé não seja apenas se adoramos Cristo na igreja, mas se somos capazes de reconhecê-Lo quando ele vem ao nosso encontro na figura do próximo.

 

Porque, no fim, a medida da nossa relação com Deus será dada pela forma como tratamos aqueles em quem Ele escolheu habitar.

 

*José Márcio Mantello é advogado criminalista na comarca de Araçatuba e Teólogo

Graduado em Direito pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Docência do Ensino Técnico e Superior pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Prática Penal Avançada pelo DAMÁSIO EDUCACIONAL; Especialização em Execução Penal pelo IDPB – Rio de Janeiro

Atuação no Tribunal do Júri

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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