Fundada em 20 de março de 1927 por integrantes da comunidade portuguesa radicada em Araçatuba (SP), e liderados pelo advogado José Cardoso da Silva, a Santa Casa de Misericórdia de Araçatuba celebra nesta sexta-feira, 99 anos.
Criado para oferecer atendimento médico-hospitalar gratuito aos doentes carentes da idade, o Hospital Sagrado Coração de Jesus de Araçatuba, como era chamado, seguiu modelo idêntico às Casas de Misericórdia de Portugal e que foi expandido em todo o Brasil pelos colonizadores.
Segundo a assessoria de imprensa do hospital, é uma trajetória que transcende o tempo e se confunde com a própria história do cuidado e da solidariedade na região.
Para o advogado Éverton Santos, que assumiu a provedoria da instituição em 2025, mais do que uma instituição de saúde, a Santa Casa é expressão viva de um compromisso coletivo com a dignidade humana. “Uma obra construída, dia após dia, por aqueles que compreenderam que cuidar é, antes de tudo, um ato de amor e de responsabilidade moral e social”, define.
Reestruturação
Ele tem como desafio, implantar um plano de gestão para atender as demandas atuais, que não param de crescer, e preparar o hospital para o crescimento das próximas décadas. A atual diretoria, empossada há nove meses, e liderada por Santos, é composta ainda por Juliano Tonon (vice-provedor), Alderney Galetti (secretário), Felippe Sakamoto (tesoureiro) e Gabriela Silva (procuradora jurídica).
Desde então, teve início um processo rigoroso de reestruturação da governança, revisão de processos, reconstrução institucional, passivo superior a R$ 250 milhões. O cenário tinha ainda um processo de recuperação judicial em curso e um ambiente marcado pela erosão da confiança entre colaboradores, corpo clínico, fornecedores e parceiros.
“Diante desse cenário, a primeira decisão foi clara: reconstruir pontes, abrir canais permanentes de diálogo, pautados pela transparência, pela escuta qualificada e pelo compromisso com soluções concretas”, resume o provedor.
Desafios
E essa não é uma realidade apenas atual, pois os desafios eram os mesmos em 1931, data da inauguração do primeiro prédio do hospital. O ato marcou o desafio enfrentado pelos fundadores para acolher os doentes e toda sorte de desvalidos que chegavam a Araçatuba.
Entretanto, a assessoria informa que os primeiros resultados do trabalho da diretoria atual já são perceptíveis. A realização de cirurgias eletivas de ortopedia, por exemplo, especialidade que tinha pacientes aguardando desde 2015, registra avanços significativos.
Segundo o que foi informado, essas cirurgias foram retomadas em julho de 2025, concentrando o foco em 906 pacientes que aguardavam há 10 anos por artroplastias de quadril e joelho.
“Através de uma força-tarefa que envolve todos os profissionais multidisciplinares e pessoal administrativo, já estamos no grupo de pacientes de 2017, 140 dos quais já realizando os procedimentos pré-operatórios”, informa Santos, destacando a retomada progressiva da capacidade assistencial da Santa Casa de Araçatuba.
Dinheiro
Segundo o que foi divulgado, também há sinais de recuperação no campo financeiro, com significativa redução do déficit ao final de 2025, reflexo direto de medidas de racionalização, controle e recomposição de receitas, demonstrando que é possível conciliar responsabilidade social com gestão eficiente.
De acordo com o provedor, esse movimento foi potencializado pela retomada do diálogo institucional com o DRS-2 (Departamento Regional de Saúde) de Araçatuba, sob a condução do diretor técnico Francisco Bassalobre.
“A partir dessa reaproximação, foi possível alinhar estratégias, ampliar a cobertura assistencial e qualificar a gestão de vagas no âmbito do SUS (Sistema Único de Saúde), reafirmando o papel da Santa Casa como eixo estruturante da rede regional”, informa.
Plano
Como expressão concreta do novo momento, em 2026 foi aprovado um plano de trabalho para a realização de cirurgias de alta complexidade pelo SUS, com volume estimado em cerca de R$ 50 milhões, fora do teto contratual. Isso é considerado um avanço significativo na ampliação do acesso da população a procedimentos especializados.
Santos aponta ainda como outro marco relevante, a homologação do plano de recuperação judicial, em 5 de fevereiro, pelo Juízo da Vara Regional de Competência Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem de São José do Rio Preto.
Para ele, esse momento não representa apenas um ato formal, mas o início de uma nova etapa: manutenção do pagamento das despesas correntes, cumprimento rigoroso das obrigações assumidas no plano de recuperação, especialmente no que se refere ao pagamento dos créditos trabalhistas em até 12 meses após a homologação do plano.
Hospital segue recebendo investimentos para ampliação da estrutura
A Santa Casa de Araçatuba assume uma responsabilidade que transcende seus próprios limites físicos. É o único hospital de alta complexidade que oferece atendimento do SUS para a população de Araçatuba. Além disso, é igualmente o único hospital de grande porte para uma região que abrange cerca de 1 milhão de habitantes, distribuídos por 40 municípios.
Ela concentra 65% dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) disponíveis nos 18 hospitais da região. São 70 leitos de um total de 108, além de ser a única instituição regional a dispor de UTI Neonatal e Pediátrica.
Essa condição consolida a Santa Casa de Araçatuba como verdadeiro pilar do sistema de saúde regional e a instituição, agora, se projeta para o futuro. Entre as metas estratégicas está a ampliação da capacidade instalada, com a criação de mais 10 leitos de UTI para adultos.
Também está previsto o aumento do volume cirúrgico, a redução do tempo de permanência hospitalar e o aprimoramento da rotatividade de leitos. Essas medidas traduzem, em termos concretos, o compromisso de fazer mais e melhor por quem precisa, segundo a direção do hospital.
Tratamento Oncológico
Paralelamente, está em execução a reforma e ampliação do prédio do CTO (Centro de Tratamento Oncológico), visando acolher com qualidade 2.065 pacientes/mês, que geram em média 30 mil atendimentos por ano.
São R$ 3.717.605,54 em aporte investidos pelo Unisalesiano através do Curso de Medicina, seguindo diretrizes do programa Mais Médicos. Com a obra, o prédio passará dos atuais 843,41 m² para 1.929,86 m², estrutura necessária para atender o crescimento exponencial que projeta 90 mil atendimentos daqui 10 anos.
Também está em andamento a última fase da reforma e ampliação do Centro Obstétrico. São 110,11m² que abrangem o posto de enfermagem, áreas de apoio e sala de indução ao parto com 5 leitos. Nesse caso, são investidos R$ 270.269,15, recursos disponibilizado pela Justiça do Trabalho e Ministério do Trabalho de Araçatuba, Prefeitura de Araçatuba e contrapartida da própria Santa Casa.
Santa Casa esteve presente quando a população mais precisou
Ao longo de quase um século, milhões de pessoas passaram pelos corredores e alas de atendimento da Santa Casa de Araçatuba. Chegaram em momentos de dor, medo, incerteza e fragilidade e encontraram acolhimento, ciência e humanização.
Sem distinção de origem, crença ou condição social ou financeira, a Santa Casa de Araçatuba permaneceu fiel à sua essência: servir a todos, especialmente aqueles que mais necessitam, com respeito, técnica e compaixão.
A linha do tempo da instituição revela também, que independentemente do tamanho da estrutura, recursos médicos e parque tecnológico, o hospital foi decisivo nos momentos em que a população mais precisou dele.
Úlcera de Bauru
Já nos primeiros anos de funcionamento, o pequeno pavilhão inaugurado em 1931 foi o refúgio e o socorro para atendimento de pacientes dos casos remanescentes da “úlcera de Bauru". Tudo começou como um surto naquela cidade e se transformou em epidemia após alastrar rapidamente dentre as comunidades localizadas ao longo da NOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil).
Diagnosticada posteriormente como LTA (Leishmaniose Tegumentar Americana), a doença causada pelo mosquito palha continuou fazendo vítimas até por volta de 1960.
Através do intenso fluxo de viajantes da ferrovia e a posição estratégica de Araçatuba no ramal ferroviário, os doentes eram direcionados para o único local da cidade onde eram tratados gratuitamente.
Meningite meningocócica
Já na década de 70, a Santa Casa de Araçatuba registrou a dor e o luto causados pela epidemia de meningite meningocócica que atingiu o Brasil entre 1971-1976. A doença registrou um pico no País em 1974.
Ex-funcionários do hospital que trabalharam na época, relatam que os casos chegavam às dezenas, a maioria crianças com até 15 anos. O neurologista Maurilio Albertino Pereira de Castro esteve à frente de uma força-tarefa criada para tentar conter a doença relativamente nova e sem medicações específicas.
Um isolamento foi montado às pressas para atendimento dos casos. Os mesmos relatos reportam pais desesperados que acampavam no jardim do hospital para ficar mais perto de noticiais sobre os filhos. A epidemia registrou inúmeros óbitos e sobreviventes que voltaram para casa, mas com sequelas.
Coronavírus
O desespero se repetiu entre março de 2020 ao final de 2022, quando ocorreram as várias ondas da pandemia do Coronavírus. Porém, desta vez, já consolidada como referência de alta complexidade, com protocolos, profissionais multidisciplinares e tecnologia, a Santa Casa de Araçatuba contingenciou rapidamente para atender centenas de pacientes.
Os profissionais que atuaram na linha de frente cunharam uma definição que traduz exatamente o fluxo do hospital durante os dois anos de pandemia: foi necessário montar um hospital dentro hospital, para garantir assistência aos contaminados pelo vírus da covid-19 e ao mesmo tempo, continuar atendendo as urgências e emergências que representam aproximadamente 90% dos atendimentos da instituição.
"Acontecimentos significativos em momentos que deixaram a comunidade no limite da ansiedade por assistência e pelo salvar de vidas. São 99 anos que consolidaram a Santa Casa de Araçatuba em sua sagrada e histórica missão de cuidar da vida", finaliza o provedor.